Há crises geopolíticas que ficam nas manchetes. E há crises que chegam aos bolsos. A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão pertence às duas categorias — e foi para discutir, em concreto, como a segunda metade dessa frase se manifesta em Moçambique que o Fórum Externo organizou, a 28 de Abril, na Universidade Pedagógica de Maputo, o Diálogo Estratégico “O Impacto da Guerra no Médio Oriente para Moçambique e a Região”.
O painel reuniu Riyadh Sidat, do Fórum Externo, Fatima Papelo docente da Universidade Joaquim Chissano e Irchard Mahomed, num formato de intervenções breves seguido de Q&A. A sala — académicos, sociedade civil, parceiros de desenvolvimento — partilhou um diagnóstico simples: estamos longe do teatro de operações, mas profundamente expostos. E não nos podemos dar ao luxo de o tratar como notícia de política externa.
Um conflito que não começou agora — e não termina amanhã
Os oradores recordaram que a tensão entre os Estados Unidos e o Irão não é nova: vem de 1979, foi agravada pela saída norte-americana do JCPOA em 2018, voltou a escalar com os ataques às instalações nucleares iranianas em 2025 e culminou no ataque norte-americano de 28 de Fevereiro de 2026. O que mudou, defenderam, foi a moldura. A ordem internacional liberal pós-1945 está a dar lugar a uma lógica de hard power — poder económico e militar — em que o Conselho de Segurança da ONU já não consegue mediar e em que mesmo a OTAN se mostrou fracturada, com a Alemanha, o Reino Unido e a Espanha a recusarem apoiar diretamente a operação norte-americana.
“Estamos a passar para um sistema mais realista — e isso obriga-nos a pensar de forma diferente sobre como nos posicionamos.”
Foi traçado um padrão estratégico: depois da Líbia e da Síria, o Irão surge como o último grande bastião antes de Washington redireccionar atenções para o Extremo Oriente e a Rússia. Para a Europa, o sinal foi o de quem percebeu que já não é prioridade dos EUA — daí a aceleração de visitas à China, em busca de alternativas energéticas e comerciais.
Como o conflito chega a Maputo
Foi nesta secção que a sala se apercebeu, com clareza, de quão exposto Moçambique está. Cerca de 80% dos combustíveis consumidos no país vêm da região do Golfo. Segundo um relatório da ONU citado no painel, somos o quarto país do mundo mais dependente de fertilizantes do Médio Oriente — o que significa que o conflito atravessa, sem escala, do Estreito de Ormuz à campanha agrícola moçambicana. À data do diálogo, o Brent já transaccionava acima dos USD 100 por barril.
Mas talvez o ponto mais incómodo tenha sido outro. A crise das filas nos postos de abastecimento, sublinharam os oradores, não foi de stock — foi de percepção. O combustível existia. O que falhou foi a comunicação antecipativa numa era de redes sociais, em que a desinformação se propaga mais depressa do que o esclarecimento. Para um Estado, essa é uma vulnerabilidade política tão real quanto a vulnerabilidade económica.
Três oportunidades estratégicas
O Diálogo recusou, no entanto, a leitura puramente catastrofista. Foram identificadas três oportunidades que Moçambique pode capturar — desde que actue rapidamente.
Primeiro, o GNL moçambicano como activo geopolítico. Num mercado europeu e asiático em busca de fornecedores alternativos a Ormuz, o gás de Cabo Delgado vale, hoje, mais do que valia há um ano. Coral Norte, Mozambique LNG e Rovuma LNG deixaram de ser apenas projectos económicos para se tornarem instrumentos de política externa — desde que a segurança em Cabo Delgado e os calendários de produção sejam consolidados.
Segundo, a refinação e a logística regional africana. A refinaria de Aliko Dangote, na Nigéria, já abastece o continente e até mercados europeus; está em desenho uma nova refinaria na Tanzânia, com participação dos Presidentes do Uganda e do Quénia. Os portos de Lamu e Mombasa passaram de dois para 74 navios por trimestre. A geografia energética africana está a ser redesenhada em tempo real — e Moçambique tem condições para entrar nessa rede como produtor, não apenas como consumidor.
Terceiro, a diplomacia económica activa. O consenso dos oradores foi pelo não-alinhamento pragmático: manter canais abertos com Estados Unidos, China, Rússia, Índia, União Europeia e potências do Golfo, sem subordinação a nenhum bloco. Hoje, apenas cerca de 6% do comércio externo africano é com outros países africanos — um número que ilustra, melhor do que qualquer discurso, o trabalho que falta fazer. Near-shoring, integração de corredores, comércio intra-SADC: a próxima crise global vai bater à porta, e a melhor resposta começa aqui ao lado.
O que o Fórum Externo leva deste Diálogo
As recomendações que ficaram em cima da mesa são exigentes mas concretas. No curto prazo: uma célula interministerial de monitoria do choque externo, reforço de uma reserva estratégica de combustíveis hoje equivalente a apenas duas semanas, profissionalização da comunicação de crise. No médio prazo: diversificação de fornecedores e fontes energéticas, valorização do gás natural moçambicano também para uso doméstico, investimento em infra-estrutura logística capaz de unir o Rovuma a Maputo e integrar os corredores Sul, Centro e Norte com os vizinhos da SADC, e a definição de uma doutrina pública de política externa para crises geopolíticas.
O Fórum Externo vai publicar o Policy Brief integral.
O nosso agradecimento à Universidade Pedagógica de Maputo, que nos acolheu, aos oradores que aceitaram o convite e a todos os que estiveram na sala a fazer perguntas que importam.
Continuaremos a traduzir o que se passa lá longe em decisões que se sentem aqui dentro.